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Ubiracy de Souza Braga
Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

“O método correto da Filosofia seria o seguinte: só dizer o que pode ser dito…”. Ludwig Wittgenstein.

Biographies of Philosophers.
Escólio: A voga da frase “a utilização da linguagem ordinária” (cf. Ryle, 1980: 37 e ss.), parece sugerir a alguns intelectuais e livres pensadores a ideia de que existe uma doutrina filosófica segundo a qual: (a) todas as Philosophische Untersunchungen se ocupam com termos vernaculares, por oposição a termos mais ou menos técnicos, acadêmicos ou esotéricos; (b), em consequência, todas as discussões filosóficas devem elas próprias exprimir-se integralmente em expressões vernaculares. A inferência é falaciosa, embora exista alguma verdade na sua conclusão. Mesmo que fosse verdade – o que não é o caso – que todos os problemas filosóficos se referem a conceitos não técnicos (isto é, se referem ao modo de emprego de expressões vernaculares), não se seguiria dessa (falsa) premissa que as discussões desses problemas devessem ser feitas ou fossem mais adequadamente feitas no inglês, francês ou alemão dos homens de ruas.
Tese: “Es preciso, de todos modos, admitir que la afirmación wittgensteiniana de
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acuerdo con la que el valor de verdade de una proposición elemental se determina comparando ésta con la realidad puede ser – y há sido – interpretada de muy distintas maneras. Se há discutido mucho, por ejemplo, si esta afirmación há de ser entendida o no en términos de percepciones sensoriales y definiciones ostensivas. En este contexto no parece, de todos os modos, demasiado importante el problema de lo que Wittgenstein viniera realmente a pensar a este proposito. Más importante es el hecho de que su afirmación implica – con independência de lo escassamente explícito que fue en relación con el problema de cómo hay que representarse la ´comparación` de una proposición con la realidad – que en lo que a la decisión acerca de la verdade o falsedad de una proposición concierne, lo que en última instancia entra en juego es, sin reserva alguna, la percepción sensorial, tal y como sostenían – por certo – los positivistas lógicos” (cf. Hartnack, 1977: 86).
Num relato pessoal para a New Yorker, George Steiner escreveu: “O século 20, tal como o vivemos no Ocidente, é, em suas linhas essenciais, um produto austro-húngaro. Viena foi a capital da era da ansiedade, eixo do gênio judaico, filtro do holocausto”. Na literatura, o escritor e médico vienense Arthur Schnitzler, cultuado, mulherengo e neurótico, eclipsou as dualidades fin-de-siècle da decadência moral da sede do império habsburgo às portas da era moderna, como veremos un passant a seguir. Historicamente e precisamente no século 19, a Europa Central compreendia o espaço econômico do Danúbio, mas aos poucos se converteu num território literário fartamente servido pelo idioma alemão. Infelizmente A. Hitler fez daquele pedaço de mundo uma espécie de “incubadora nazista”, na falta de melhor expressão. Atingiu seu objetivo facilmente, em parte graças à crise de identidade, à depressão e à hesitação que se abateram sobre os intelectuais vienenses.
Áustria, Hungria e Habsburgo: palavras-chaves do império. Os habsburgos subiram ao trono em 1273, embora estivessem no poder desde 867. Eram verdadeiros experts na ciência (ou arte) de mandar e de sobreviver a instabilidades. Usavam a força “quando necessário” (Maquiavel) e a diplomacia para “alinhavar matrimônios” (Alberoni). As vogais diziam tudo: Austriae Est Imperare Orbi Universo. A Europa admitia: “era o mundo e, a Áustria, seu centro”, o que nos faz rememorar (Benjamin) o centro administrativo e cultural do Tahuantinsuyu, ou Império Inca, “umbigo do mundo” (Lumbreras). Porta para a Ásia, epicentro da Europa, abrigo de nômades, fabricante de exilados, aquele império do ponto de vista da diversidade abrangia 17 nacionalidades e seu hino era entoado em 13 idiomas.
Historicamente a palavra modelo vem do italiano modello, e neste sentido Viena representou uma “colcha de retalhos” cuidadosamente costurada, em três aspectos ímpares: a) por uma experiente dinastia amparada em burocracia (Weber), b) matrimônios (Alberoni) e, c) um “liberalismo pragmático” (Bentham). A Europa média ou central era a própria Áustria-Hungria, como o Oriente Médio, até 1918, confundia-se com o Império Otomano. Englobava boa parte da Europa central, oriental, norte da Itália e Bálcãs, vinte nações que poderiam ser arrumadas em 16 diferentes composições geopolíticas. As pilastras do antigo império – Áustria, Boêmia, Morávia, Hungria – integravam as alternativas. Politicamente o reinado de Francisco José I, que vai de 1848 a 1916, foi o mais longo da história europeia. Em 68 anos de estabilidade, burocracia, rigor, tradição e protocolo, a aristocracia difundiu um comportamento que permeou a cultura e a política austríacas pelo menos até a Segunda guerra Mundial. A celebrada efervescência vienense é desse período de intensa produção artística e principalmente literária. Mas, na virada para o século 20, Viena experimentava “circunstâncias díspares”.
Melhor dizendo: “Decadência e inovação; unidade e multiplicidade; cosmopolitismo e provincianismo; Levante e Ocidente”, escreveu o historiador Carl Shorske em seu extraordinário livro Viena fin-de-siècle. Isso propiciou o florescimento de um “surto de criatividade”, tão expansivo que a vida política posterior ficaria marcada para sempre por traços que oscilavam, psicanaliticamente falando (Freud), entre culpa e redenção, angústia e beleza, ansiedade e vazio. Imbuída de senso de missão e determinada a libertar-se do jugo edipiano clássico-iluminista, Viena abrira “espaços de convívio” (Certeau), onde os mais ousados conceitos passaram a ser objeto de vivo debate. Os grandes jardins já públicos, os salões literários, os cafés legendários transformaram-se em foros de discussão da psicanálise nascente, do novo urbanismo, da música atonal, das artes plásticas – do “déco” ao expressionismo.
Os cenários intelectuais eram múltiplos: a) havia o salão de Alma Mahler, mulher de Gustav e musa de Kokoschka, Giropius e Werfel; b) o Café Central, onde se cruzavam Freud, Mazarik, Bronstein (ou melhor, Leon Trotsky), o socialista Bauer e o reacionário Lueger. Wittgenstein, Schoenberg, Klimt e Otto Wagner discutiam avanços que iam da matemática à estética; c) Herzl vislumbrava o Estado judeu, já temendo o antissemitismo crescente; e d) tragicamente o então jovem Adolf percorria maravilhado, a monumental Avenida Ringstrasse. A vida de Arthur Schnitzler coincide com o outono áureo de uma civilização majestosa, cenário ideal para romper com a tradição e antecipar a modernidade. Mas as circunstâncias trágicas pelas quais a Áustria acabou sendo enredada nas duas grandes guerras, até ser anexada pela Alemanha em 1938, aguçaram os contrastes e antinomias. Num cenário histórico de intolerância crescente e irradiação artística luminosa, o esplendor vienense degradou-se.

Johan Joseph Ludwig Wittgenstein nasceu em Viena em 1889, em uma família da alta burguesia e, certamente, pelo que indica de ascendência israelita. Seu pai era dono de uma importante indústria de ferro e aço e protetor de artistas, principalmente músicos e pintores. Sua mãe era também apaixonada por música, e na rica mansão vienense dos Wittgenstein, J. Brahms era um dos convidados íntimos, assim como Clara Schumann, B. Walter e G. Mahler. O Ludwig, a certo momento de sua vida contribuiu com uma importante soma em dinheiro para a atribuição de prêmios literários – entre os beneficiados encontram-se Tralk e Rilke. Quando implodiu a Primeira grande Guerra, em 1914, Rilke morava em Munique e lá permaneceu durante todo o conflito. Antes de se mudar para Munique, ele viveu na região do Trieste e publicou, em 1913, Das Merien Leben e iniciou a redação de Duineser Elegien, texto que só viria a ser publicado em 1923. Duíno era um castelo na região de Trieste, Itália, onde Rilke morou por dois anos antes da Guerra, a convite da princesa Maria von Thurn und Taxis. Após o conflito na Europa, Rilke mudou-se para a Suíça, a última de suas pátrias de eleição, onde viveu até encontrar a sua última morada.
A educação de Ludwig Wittgenstein até a idade de quatorze anos foi feita por preceptores no seio da própria família; educação seguramente marcada também pelo protestantismo, ao qual a família se havia convertido em meados de 1835. Outro aspecto importante que merece ser assinalado é que Ludwig foi o filho mais novo dentre cinco irmãos e três irmãs, desde a idade de treze anos, começou ele a ter uma experiência trágica da morte, concretamente com o suicídio (Durkheim) de dois de seus irmãos – Hans em Cuba, em 1902, que permaneceu ocupada pelos Estados Unidos, sendo liberada depois da aprovação de uma emenda à Constituição cubana que dava o direito, aos Estados Unidos, de invadir Cuba a qualquer momento em que os interesses econômicos dos Estados Unidos fossem ameaçados. Vale lembrar que a chamada Emenda Platt permaneceu mantendo Cuba um protetorado estado-unidense até 1933, e Rudolph em Viena, em 1904; seu outro irmão Kurt viria também a suicidar-se no front de batalhas de 1918.

Escólio: Filme baseado na vida real de Ludwig Wittgenstein, um jovem prodígio austríaco que se muda para a Inglaterra para estudar. Após passar pela faculdade de Engenharia, decide dedicar-se à Filosofia. Em Cambridge, conhece o filósofo Bertrand Russell, que, admirado com as teorias originais do jovem, o proclama o mais talentoso pensador de sua geração. Depois de lutar como voluntário na Primeira grande Guerra, Ludwig retorna a Cambridge, agora como professor. Lá, se envolve com o estudante Johnny, amante de seu amigo, o professor John Maynard Keynes que foi um economista britânico cujos ideais serviram de influência para a macroeconomia moderna, tanto na teoria quanto na prática. Durante as décadas de 1950 e 1960, o sucesso da economia ideológica keynesiana foi tão retumbante que quase todos os governos capitalistas adotaram suas recomendações políticas de intervenções econômicas.
A obra de Wittgenstein teve recentemente uma abordagem inédita e provavelmente única a partir da fenomenologia da linguagem de Michel de Certeau (1974; 1975; 1980; 1994), objeto de nossa análise. Antes a advertência: “para descrever essas práticas cotidianas que produzem sem capitalizar, isto é, sem dominar o tempo, impunha-se um ponto de partida por ser o foco exorbitado da cultura contemporânea e de seu consumo: a leitura”. Isto porque, da televisão ao jornal, da publicidade a todas as epifanias mercadológicas, a nossa sociedade canceriza a vista, mede toda a realidade por sua capacidade de mostrar ou de se mostrar e transforma as comunicações em viagens do olhar. É de fato, uma epopeia do olho e da pulsão de ler. A economia fomenta uma hipertrofia da leitura. O binômio produção-consumo poderia ser substituído por seu equivalente geral: escritura-leitura. Aliás, a leitura da imagem ou do texto parece constituir o ponto máximo da passividade que caracterizaria o consumidor, constituído em voyeur em uma “sociedade do espetáculo” (cf. Debord, 1967; 1995).
Ele foi primus inter pares: em grego, Πρῶτος μεταξὺ ἴσων (protos metaxy ison), do ponto de vista da análise da vida cotidiana. A novidade está em que na perspectiva em que se colocou ela pode ser considerada uma “crítica radical do perito”, mas, que tem como corolário, uma “crítica do filósofo como perito”. Este retorno tem o caráter paradoxal de ser também um exílio em relação às disciplinas cujo rigor se mede pela estrita definição de seus limites. À cientificidade se atribuiu lugares próprios e apropriáveis por projetos racionais desde que ela se fundou como uma pluralidade de campos limitados e distintos, em suma, “a ciência constituiu o todo como o seu resto, e este resto se tornou o que agora denominamos a cultura”. Assim, cabe a ambos, o perito e o filósofo, a tarefa de mediadores entre um saber e a sociedade, o primeiro enquanto introduz a sua especificidade na área mais vasta e complexa de decisões sócio-políticas, o segundo enquanto reinstaura, relativamente a uma técnica particular (matemática, lógica, psiquiatria, história etc.) a pertinência de interrogações gerais. No perito, uma competência se transmuta em autoridade social; no filósofo, as questões banais se tornam um princípio de suspeita (Foucault) num terreno técnico (Habermas).
Seu pensamento é geralmente dividido em duas fases. Para identificá-las, muitos autores recorrem ao artifício de atribuir os escritos da juventude ao Primeiro Wittgenstein e a obra posterior ao Segundo Wittgenstein, como se designassem autores distintos. A cada um desses períodos corresponde uma obra central na história da filosofia do século XX. À primeira fase, pertence o Tractatus Logico-Philosophicus, livro em que Wittgenstein procura esclarecer as condições lógicas que o pensamento e a linguagem devem atender para poder representar o mundo. À segunda fase, pertencem as Investigações Filosóficas, publicadas postumamente em 1953. Nesse livro, Wittgenstein trata de tópicos similares ao do Tractatus, mas sob uma perspectiva radicalmente diferente, e ipso facto avança sobre temas da filosofia da mente ao analisar conceitos como o de compreensão, intenção, dor e vontade.
Do ângulo de sua formação (Jaeger) até 1903, Ludwig foi educado em casa; após este período, estudou por três anos na Realschule em Linz, uma escola que dava ênfase a disciplinas técnicas. Durante um dos anos letivos, Wittgenstein foi contemporâneo de A. Hitler na Realschule. Embora tivessem a mesma idade, não foram colegas de classe – Hitler estava dois anos atrasado. Não há informação segura de que tenham se conhecido. Em 1906, Wittgenstein inicia seus estudos de Engenharia Mecânica em Berlim, e em 1908 ingressa na Universidade de Manchester. À época, Wittgenstein pretendia tomar parte nas pesquisas pioneiras em aeronáutica. Registrou-se como estudante pesquisador em um laboratório de engenharia, onde conduziu pesquisas com pipas de observação atmosférica e, mais tarde, dedicou-se à construção de um motor a jato. Durante suas pesquisas em Manchester, interessou-se por problemas de fundamentação da matemática e começou a estudar o The principles of mathematics, de Bertrand Russell, e o Grundgesetze der Arithmetik, de Gottlob Frege.
No verão de 1911, Wittgenstein visitou Frege, depois de ter se correspondido com ele por algum tempo, e Frege recomendou que ele fosse à Universidade de Cambridge estudar com Russell. Em Outubro de 1911, Wittgenstein chega – sem qualquer aviso – à sala de Russel no Trinity College e manifesta seu interesse de assistir a suas aulas de lógica. Russell recebe-o em suas aulas de lógica matemática e, diante das incertezas de Wittgenstein quanto a continuar na engenharia ou dedicar-se à filosofia, pede-lhe que escreva um ensaio filosófico durante as férias de fim de ano. Em janeiro de 1912, Wittgenstein entrega-lhe o ensaio solicitado. Russell fica profundamente impressionado e convence seu novo aluno a deixar de vez a engenharia. A partir de então, inicia-se uma intensa colaboração entre os dois, cujo foco “era as questões filosóficas suscitadas pela lógica”.
Apesar de estar extremamente envolvido nos estudos e nas discussões com Russell, Wittgenstein sentia que não podia chegar à raiz dos problemas que o ocupavam enquanto certamente estivesse em Cambridge. Em 1913, partiu para a remota Skjolden, na Noruega, em busca do sossego que julgava necessário. O isolamento permitiu-lhe dedicação integral a seu trabalho, o que representa um busílis nestes dias mesmo com a dimensão e o alcance do trabalho abstrato de pensamento. Posteriormente, ele escreveria sobre esse período na Noruega: “Tenho a impressão de ter conseguido trazer à luz as ondas de pensamento que estavam confinadas dentro de mim”. Enquanto esteve lá escreveu um texto ao qual deu o nome de Logik remota e inversamente lembrando Hegel, no qual já se anunciavam várias ideias que, mais tarde, fariam parte do Tractatus Logico-Philosophicus.
Para lembramos de Ginzburg e Poni (1979), no ensaio: “Il nome e il come: scambi ineguale e mercato storiografico”, Ludwig Wittgenstein (1889 – 1951) não era inglês por nascimento ou “comportamento social”, ainda que ao morrer tenha levado consigo como “acidente de percurso” (Freud) a nacionalidade inglesa. Filho caçula de uma família vienense rica e culturalmente refinada, de ascendência judaica, teve, tal como Max Weber, em família, um centro de vida artística, mas não política, e, em particular, a música do classicismo vienense e na literatura a influência de Wolfgang Goethe, formando um ambiente que mais tarde ele denominaria o seu “bom treinamento intelectual pré-escolar”. Viena na virada para o século 20 viveu momentos e circunstâncias díspares de decadência e inovação, unidade e multiplicidade, cosmopolitismo e provincianismo, propiciando o florescimento de surto de criatividade tal que a vida cultural e política posterior seriam marcadas por seus traços de gênio e de bom humor, culpa e redenção, angústia e beleza. Viena fin-de-siècle mostra onde, quando e como se fabricou a modernidade. Paradigmáticos foi o salão da musa Alma Malher, Gustav Mahler, Kokoschka, Klimt, Gropius e Werfel, Hofmannsthal e Schnitzler, e o café Central onde se cruzavam Freud, Mazarik, Trotski, Bauer, o reacionário Lueger. Wittgenstein, Schoenberg e Schiele, Loos e Otto Wagner, por sua vez discutiam avanços da matemática à estética.
Do ângulo da cultura só aparentemente Wittgenstein foi um conservador, se entendermos como descompasso seu pensamento com o “espírito da corrente dominante na civilização europeia e americana”. Politicamente falando, detestava o pacifismo e o socialismo humanista de Russell, e, ao mesmo tempo, simpatizava com a esquerda radical dos anos trinta e quarenta, talvez por influência de Piero Sraffa. Sua imensa paixão intelectual e sua honestidade o impediram, contudo, de “pecar” por nostalgia ou provincianismo, o que o fez reagir de modo incisivo a certas ideias da modernidade. Isso fica claro, como sabemos, a partir das influências mais diretas sobre seu pensamento, por ele mesmo enumeradas em 1931: Boltzmann, Hertz, Schopenhauer, Frege, Russell, Kraus, Loos, Weininger, Splenger, Sraffa. Aqueles que foram relevantes para a fase inicial de sua filosofia podem ser tipificados, segundo Glock (1998) em três grupos: os sábios, os cientistas-filósofos e os lógicos-filósofos.
Os sábios eram pensadores de fora do ambiente filosófico acadêmico cuja obra Wittgenstein lera ainda bem moço, como Karl Kraus, o feroz crítico da cultura e da linguagem do final do Império Habsburgo que lhe causou forte impressão, por sua insistência na integridade pessoal. A obra de Kraus inseria-se no contexto da chamada “crise da linguagem”, quando a preocupação geral era a autenticidade da expressão simbólica na arte e na vida pública. Outra expressão dessa crise foi a crítica da linguagem de Mauthner, autor que perseguiu uma meta kantiana, a derrota da especulação metafísica. Mauthner substituiu, entretanto, a crítica da razão por uma crítica da linguagem, sendo sua obra, afinal, mais tributária de Hume e de Mach. Seu método era psicologista e historicista: a crítica da linguagem faz parte da psicologia social. O conteúdo da crítica era empirista – a linguagem funda-se nas sensações. Seu resultado foi cético – a razão idêntica à linguagem, mas esta última não serve para penetrar a realidade. Wittgenstein, acertadamente, opõe sua própria “crítica [lógica] da linguagem” à de Mauthner, que foi, contudo quem primeiro identificou a filosofia com a crítica da linguagem.
De Otto Weiniger, autor do célebre livro: Sex and Character pode-se dizer, talvez, que era mais um psicopata do que propriamente um sábio. Este autor defendia a tese da inferioridade da mulher relativamente ao homem, receitando, então, aos homens a abstinência sexual. Contudo, Weiniger parece ter sido um autor bastante influente na Europa do início do século, pelo menos se levarmos em conta o seu livro Sexo e Caráter que mereceu, em vinte anos, vinte e cinco edições, e traduções em oito línguas, o próprio Freud teve acesso e serviu-se dos manuscritos. Seu suicídio, encenado teatralmente em 1903, foi imitado por vários jovens em Viena, e a influência benigna que exerceu sobre Wittgenstein foi restrita. Contaminou-o com sua misoginia e com dúvidas, igualmente tola e perniciosa, quanto ao poder criativo dos judeus, mas talvez como Theodor Herzl que vislumbrava o Estado judeu (cf. Braga, 2010), temendo o antissemitismo (Arendt) ainda existente em Viena. A influência mais importante reside, entretanto, na ideia de que o indivíduo tem o dever moral para consigo, e elementos empíricos e os elementos a priori da mecânica.
Elucidou a possibilidade de explicação científica com base na natureza da representação. A ciência constrói modelos (Bilder) da realidade, de tal modo que as consequências lógicas de tais modelos correspondam às consequências reais das situações externas que descrevem. Suas teorias não são predeterminadas pela experiência, mas antes construídas de forma ativa, respeitando-se restrições formais e pragmáticas, às quais Hertz se referia como “as leis do pensamento”. Ele requereu da ciência evitar pseudoproblemas pela apresentação desses elementos apriorísticos de modo claro e perspícuo. Boltzmann foi mais hostil a Kant. Acusou-o, em um espírito darwiniano, de não levar em conta o fato de que as “leis do pensamento” não são imutáveis, mas apenas inatas no indivíduo, resultantes da “experiência da espécie”.

Levou adiante, contudo, o projeto hertziano de esclarecer a ciência com base em modelos que não se originam da experiência, conservando a visão de que a confusão filosófica deve ser resolvida pela revelação da natureza absurda de certas questões. Estes autores exerceram influência sobre a teoria pictórica do Tractatus, e também sobre a discussão que ali se encontra acerca da ciência. E mais ainda, reforçaram uma concepção kantiana sobre a tarefa da filosofia, que Wittgenstein encontrara também em Schopenhauer: distinguindo-se da ciência, a filosofia não descreve a realidade; sua tarefa é crítica. O plano inicial de Wittgenstein de estudar com Boltzmann, em Viena, foi frustrado pelo suicídio deste último em 1906. Ele foi, então, encaminhado a Berlim para estudar engenharia. Não tardou, entretanto, a ver-se atraído por problemas filosóficos, dando início ao hábito, que duraria por toda a vida, de anotar suas reflexões filosóficas em apontamentos datados de 1914 em cadernos (cf. foto).
Em 1908, mudou-se para Manchester, onde desenvolveu interesse primeiro pela matemática pura, e logo por seus fundamentos filosóficos. Conheceu os escritos de Frege e Russell e, em 1909, tentou resolver o maior problema então em destaque – a contradição que Russell descobrira no sistema de Frege. Em 1911, traçou um plano para um trabalho filosófico, o qual discutiu com Frege, mas desde Frege a semântica filosófica colocou no centro a estreita relação entre significado e verdade. Contudo, a completa equiparação do compreender ao conhecimento de condições da verdade ou métodos de verificação, no entanto, é insustentável, visto que o aspecto da verdade não é constitutivo para todas as modalidades, e a compreensibilidade inclusive de sentenças afirmativas não verificáveis é indiscutível. Especialmente a análise de situações ditas radicais (Quine) de tradução e aprendizagem mostra quantas coisas permanecem inaplicadas em teorias existentes.
Ao conselho deste foi para Cambridge estudar com Russell, que a esta altura tornara-se a figura central destes debates. Isto foi decisivo na vida de Wittgenstein. Frege e Russell proporcionaram o pano de fundo essencial para sua “primeira filosofia”, bem como alvos importantes de seu pensamento posterior. Enfim, para sermos breves, o sistema lógico dos Princípia Mathematica, de Russell e Alfred North Whitehead, assim como os de Frege, faz uso da analogia entre a estrutura de proposições e estruturas associadas à teoria das funções presentes na análise matemática. Entretanto, a concepção que Russell tinha de função proposicional diferia da noção de conceito de Frege, no sentido de que seus valores não eram duas entidades lógicas, como o verdadeiro e o falso, mas sim proposições. Russell negou, por conseguinte, que as sentenças nomeiem valores de verdade.
Repudiou, além disso, a distinção fregiana entre sentido e significado, juntamente com a suposição de que é possível a existência de proposições destituídas de valor de verdade. Durante um curto espaço de tempo, o que não é pouco, Wittgenstein foi a estrela em ascensão em Cambridge, tendo sido membro de uma autoproclamada elite intelectual, “os Apóstolos”. Em 1913, entretanto, ele parte para a Noruega, com o objetivo de trabalhar sozinho em sua nova teoria da lógica. Com a deflagração da guerra de 1914-18, vai para Viena e se voluntaria ao serviço militar. Feito prisioneiro em 1918, arranjou um jeito de enviar o manuscrito a Cambridge.
O apoio de Russell acabou por garantir sua publicação, em 1921, do que hoje se conhece como: Tractatus logico-philosophicus, bem como de uma tradução inglesa plus tard. Com o Tractatus, Wittgenstein acreditava ter resolvido “todos” os problemas fundamentais da filosofia. Isto o levou, após a sua publicação, provisoriamente a abandonar o tema. Ao retornar do cárcere, em 1919, doou a fortuna que herdara de seu pai com o objetivo de “romper com o passado”. Não é de se estranhar que não podendo na filosofia a solução para os problemas pessoais da existência, como fizera Michel Foucault, mais tarde, tenha Wittgenstein procurando solucionar os seus próprios – sentimento de culpa, homossexualismo, relação com a morte, relação com Deus – assumindo uma atitude ética exemplar: ajudar as pessoas carentes dos campos empobrecidos pela guerra, ensinando-as a pensar por si próprias, e mostrar a essas pessoas um exemplo de vida desinteressada e generosa.
Em 1920, abraçando uma “improvável vocação”, foi ser professor no Ensino Fundamental em uma área rural no interior da Áustria. Lá redigiu um dicionário de ortografia para uso em “escolas primárias”: Wörterbuch für Volksschulen. Não tardou, contudo, a ver-se em dificuldades e a desencantar-se. Wittgenstein jamais perdeu o contato com a filosofia. Em 1923, recebeu uma visita de F. P. Ramsey, um jovem e brilhante matemático de Cambridge, que tivera um papel crucial na tradução do Tractatus, e que foi, de seus leitores e críticos, o mais perspicaz. O principal projeto de Ramsey dizia respeito a reformulação dos fundamentos logicistas da matemática, com base na nova filosofia da lógica de Wittgenstein. Em visitas subsequentes e na correspondência, Wittgenstein manifestou-se contrário não somente a alguns detalhes da reconstrução de Ramsey, como também ao próprio projeto de fundamentação da matemática. Em 1926, retornou a Viena.
Em 1929, ele retornou a Cambridge, instigado por Ramsey, com quem teve profícuas discussões até a morte precoce deste em 1930. Reiniciou seu hábito de anotar reflexões filosóficas e submeteu o Tractatus como tese de doutorado – dizendo aos membros de sua banca examinadora, Russell e Moore: “Não se preocupem, vocês jamais o entenderão”. Com o apoio de ambos, ganhou uma bolsa de pesquisa em 1930. Começou, além disso, a ministrar seus célebres cursos-palestras. Nesse meio tempo, o Tractatus granjeara a atenção do Círculo de Viena, um grupo de filósofos de orientação cientificista, liderados por Moritz Schilick. A obra foi vista por alguns deles como Schlick, Carnap, Waismann, “como um marco decisivo na história da filosofia”. A compreensão que tiveram dela foi, contudo, apenas parcial. Empiristas convictos que eram, acolheram bem a ideia de que as proposições necessárias são analíticas (teoria), e que não expressam, portanto, conhecimento acerca da realidade (empiria).
Distinguindo-se de versões anteriores do empirismo (Mill, Mach), essa visão contempla sua noção de necessidade, evitando ao mesmo tempo o platonismo e a noção kantiana de verdades sintéticas a priori. Distinguindo-se de Wittgenstein, trataram como tautologias não apenas as proposições lógicas, mas também as equações aritméticas. E, enquanto para o Tractatus as regras da sintaxe lógica refletem a essência da realidade, o Círculo de Viena as via como convenções arbitrárias que governam o uso dos signos. Schilick estabeleceu um contato com Wittgenstein, que não participava dos encontros semanais do Círculo, mas reunia-se com um pequeno grupo selecionado de seus membros (Schilick, Waismann e, inicialmente, Carnap e Feigl).
Estas discussões, juntamente com o Tractatus, exerceram influências decisivas no desenvolvimento do positivismo lógico no período entre guerras e encontram-se registradas em Wittigenstein and the Viena Circle. Waismann foi incumbido de escrever um livro – Logik, Sprache, Philosophie – que apresentasse uma explicação acessível para o Tractatus. Entretanto, uma vez que Wittgenstein rapidamente abandona as doutrinas que inicialmente sustentou, o livro acabou por se transformar em uma exposição das visões que ele desenvolvera no início da década de 1930. Por conta da tensão daí decorrente, romperam relações em 1934, e o livro só veio a ser publicado em 1965 em inglês: The Principles of Linguistic Philosophy. Por ocasião desses encontros, e isto é importante para nós, Wittgenstein desenvolveu o hoje célebre princípio de verificação, segundo o qual o “significado de uma proposição é seu método de verificação”.
De suas aulas ministradas na década de 1930, pode-se dizer que desprende-se ideias expostas no Tractatus, um dos grandes clássicos da filosofia, sendo a única obra filosófica que Wittgenstein publicou em vida. Em sua morte deixou um manuscrito com um título talvez provisório: Philosophische Untersunchungen (“Investigações Filosóficas”) – traduzido pouco depois para o inglês e publicado como o Tractatus, na edição bilingüe inglês-alemã. Estas Philosophische Untersuchungen ou Philosophical Investigations, como é o título de sua versão inglesa, equivalem, para Justus Hartnack (1977) e muitos outros, em boa medida, a uma “ruptura” com o Tractatus. Na primeira edição da versão das Investigações Filosóficas, considera-se que a primeira parte deste volume estava pronta desde 1945, sendo que a segunda parte surgiu entre 1947 e 1949. Em 1939 ascendeu a cátedra que Moore havia deixado vaga. Durante algum tempo prestou seus serviços como vigilante em um hospital de Londres; mais tarde incorporou-se a um laboratório médico em Newcastle. O último ano de guerra passou-os em Cambridge. Finda a contenda, manteve-se apenas dois anos mais na docência. Em 1947, aos 58 anos de idade decidiu retirar-se. Wittgenstein resistia, de certo modo, ao exercício profissional da filosofia; mais que isso, cabe inclusive afirmar que a repugnava. E não porque fosse excessivamente difícil ou tedioso, senão por razões morais. Na atividade de catedrático, anteviu acertadamente, um perigo para a integridade intelectual do pensador.
Daí pode-se inferir, e que sabemos ao certo, é que Wittgenstein resistia a considerar-se professor de filosofia e que em 1947 pediu e obteve sua licença do cargo. A partir deste ano refugiava-se periodicamente na costa ocidental da Irlanda, ocupando uma choupana; a última hora chegou a transferir-se a um hotel em Dublin. Uma vez conhecido seu diagnóstico médico cancerígeno (mas negou-se a ser operado), retornou a Cambridge onde morreu a 29 de abril de 1951, aos três dias de haver completado os 62 anos. Suas últimas palavras foram as seguintes: “Diga a eles que tive uma vida maravilhosa!”. Esse seria um comentário surpreendente se referido a sua vida pessoal, marcada pelo silêncio, sofrimento e mesmo pela auto-obsessão.
Enfim, o perito prolifera nesta sociedade, a ponto de se tornar a sua figura generalizada, tensionada entre a exigência de uma crescente especialização e a de uma comunicação tanto mais necessária (Habermas). Sem dúvida, cada vez mais, cada especialista deve ser também um perito, ou seja, intérprete e o tradutor de sua competência para outro campo. E como é que consegue passar de sua técnica – a língua dominada e reguladora – para a língua, mais comum, de outra situação? Mediante curiosa operação, que “converte”, segundo M. de Certeau, a competência em autoridade. No limite, quanto maior a autoridade do perito, menor a sua competência, até o ponto em que seu fundo se esgota, como a energia necessária para o lançamento de um projétil. Durante o tempo desta conversão, não fica sem competência, mas abandona aquela que possui à medida que a sua autoridade se estende para mais longe, exorbitada pela demanda social e mesmo por responsabilidades políticas. Daí o paradoxo da autoridade, talvez, toda autoridade: ganha o reconhecimento precisamente por um saber que lhe falta no terreno onde se exerce.
É indissociável de um “abuso de saber” – onde talvez seja mister reconhecer o efeito da lei social que desapropria o indivíduo de sua competência em vista de instaurar ou restaurar o capital de uma competência em vista coletiva, isto é, de um provável comum. Não podendo ater-se ao que sabe, o perito se pronuncia em nome do lugar que sua especialidade lhe valeu. Assim ele se inscreve e é inscrito numa ordem comum onde a especialização tem valor de iniciação enquanto regra e prática hierarquizante da economia produtivista. Fala então como homem ordinário, que pode receber “autoridade” com o saber. Ele continua crendo ou dando a crer que age como cientista confundindo o lugar social e o discurso técnico. Toma um pelo outro: ocorre um quid pro quo. Desconhece a ordem que representa. Não sabe mais o que diz. Reconhecido como científico, “seu discurso não passava de linguagem ordinária dos jogos táticos entre poderes econômicos e autoridades simbólicas” (cf. Braga, 2010).
Para Certeau, enquanto diz respeito à linguagem, a questão filosófica consistiria, sobretudo em interrogar, em nossas sociedades técnicas, a grande partilha entre as discursividades reguladoras da especialização e as narrativas do intercâmbio massificado. Independentemente das análises que reduziriam umas e outras ao índice comum de práticas linguísticas, ou das pesquisas que põem em evidência ou a insinuação de crenças, da probabilidade, das metáforas, isto é, do “comum” no discurso científico, ou as lógicas complexa implícitas na linguagem ordinária é possível recorrer também a uma filosofia que forneça um “modelo” e que efetue um exame rigoroso da linguagem ordinária: a de Wittgenstein.
“Quando os filósofos usam uma palavra – ‘saber’, ‘ser’, ‘objecto’, ‘eu’, ‘proposição’, ‘nome’, – e procuram captar a essência da coisa, devemo-nos sempre perguntar: na linguagem onde vive, esta palavra é de facto sempre assim usada? (…) Nós reconduzimos as palavras do seu emprego metafísico ao seu emprego quotidiano” (cf. Wittgenstein, 1987: 259; 1979: 55).
Se Wittgenstein pretende “trazer a linguagem do seu uso filosófico de volta ao seu uso ordinário”, ao everyday use, ele se proíbe, ou proíbe ao filósofo toda extrapolação metafísica para fora, como ocorre com Pierre no livro: Ce Que Parler Veut Dire (1998), quando ele afirma:
“Le discours n’est pas seulement un message destiné à être déchiffré; c’est aussi un produit que nous livrons à l’appréciation des autres et dont la valeur se définira dans sa relation avec d’autres produits plus rares ou plus communs. L’effet du marché linguistique, qui se rappelle à la conscience dans la timidité ou dans le trac des prises de parole publiques, ne cesse pas de s’exercer jusque dans les échanges les plus ordinaires de l’existence quotidienne: témoins les changements de langue que, dans les situations de bilinguisme, sans même y penser, les locuteurs opèrent en fonction des caractéristiques sociales de leur interlocuteur; ou, plus simplement, les corrections que doivent faire subir à leur accent, dès qu’ils sont placés en situation officielle, ceux qui sont ou se sentent les plus éloignés de la langue légitime. Instrument de communication, la langue est aussi signe extérieur de richesse et un instrument du pouvoir. Et la science sociale doit essayer de rendre raison de ce qui est bien, si l’on y songe, un fait de magie: on peut agir avec des mots, ordres ou mots d’ordre. La force qui agit à travers les mots est-elle dans les paroles ou dans les porte-paroleoe On se trouve ainsi affronté à ce que les scolastiques appelaient le mystère du ministère, miracle de la transsubstantiation qui investit la parole du porte-parole d’une force qu’elle tient du groupe même sur lequel elle l’exerce. Ayant ainsi renouvelé la manière de penser le langage, on peut aborder le terrain par excellence du pouvoir symbolique, celui de la politique, lieu de la prévision comme prédiction prétendant à produire sa propre réalisation. Et comprendre, dans leur économie spécifique, les luttes les plus éloignées, en apparence, de toute rationalité économique, comme celles du régionalisme ou du nationalisme. Mais on peut aussi, à titre de vérification, porter au jour l’intention refoulée de textes philosophiques dont la rigueur apparente n’est souvent que la trace visible de la censure particulièrement rigoureuse du marché auquel ils se destinent” (cf. Bourdieu, 1998).
Ipso facto esta perspectiva é antevista por Wittgenstein, como vemos desde o Tractatus, quando o autor afirma:
“O método correcto da Filosofia seria o seguinte: só dizer o que pode ser dito, i.e., as proposições das ciências naturais – e, portanto sem nada que ver com a Filosofia – e depois, quando alguém quisesse dizer algo de metafísico, mostrar-lhe que nas suas proposições existem sinais aos quais não foram dados uma denotação. A esta pessoa o método pareceria ser frustrante – uma vez que não sentiria que lhe estávamos a ensinar Filosofia – mas este seria o único método estrictamente correcto” (cf. Wittgenstein, 1987:142; 1979, grifos meus).
Fixou para si como tarefa ser o cientista da atividade significante na linguagem comum. Qualquer outra coisa só é levada em conta como linguagem por analogia ou comparação com o “aparelho de nossa linguagem ordinária”. Mas trata-se de abordá-la de maneira a não afirmar nada que extrapole a competência desta linguagem e, portanto, a jamais tornar-se o perito nela, ou o intérprete, em outros campos linguísticos, (por exemplo, metafísico ou ético), a nunca falar noutro lugar “em seu nome”, o que fez Certeau referir a ele como “Hércules, faxineiro das estrebarias de Áugias da intelectualidade contemporânea”. Deve assim tornar-se impossível a conversão da competência em autoridade, como vemos a seguir:
“Eu quero dizer o seguinte: aquilo a que chamamos ‘linguagem’ é antes de tudo o aparelho da nossa linguagem habitual, da nossa linguagem verbal; e a seguir, então, outras coisas, mas a partir da analogia ou da possibilidade de comparação com aquela” (cf. Wittgenstein, 1987: 432).
Enfim, Wittgenstein muda o lugar de análise, definida agora por uma universalidade que é identicamente uma obediência ao uso ordinário. Essa mudança de lugar modifica o estatuto do discurso. Vendo-se “preso” na linguagem ordinária, o filósofo não possui mais lugar próprio ou apropriável. É-lhe retirada toda posição de domínio. O discurso analisador e o “objeto” analisado têm o mesmo estatuto, o de se organizar pelo trabalho de que dá testemunho, determinados por regras que não fundam nem superam, igualmente disseminadas em funcionamentos diferenciados, inscritos em uma textura onde cada fragmento pode cada vez “apelar” a outra instância. Dá-se uma permanente troca de lugares distintos. O privilégio filosófico ou científico se perde no ordinário. Essa perda tem como corolário a invalidação das verdades. Mostrando que são uma mistura de nonsense e de poder, Wittgenstein se esforça por reduzir essas verdades a fatos linguísticos e àquilo que, nestes fatos, remete a uma indizível ou “mística” exterioridade da linguagem.
Filosofia da linguagem comum ou filosofia da linguagem ordinária ou filosofia da linguagem cotidiana, em inglês: ordinary language philosophy são denominações de um movimento filosófico que tem como pressuposto metodológico a ideia de que os problemas filosóficos tradicionais resultam de confusões conceptuais. Segundo seus adeptos, os filósofos frequentemente incorrem nessas confusões por distorcer ou desconsiderar o que as palavras realmente significam na linguagem cotidiana. Essa abordagem requer tipicamente uma atenção a detalhes no emprego de palavras e expressões da língua natural. Também chamada de “Filosofia de Oxford”, essa orientação é associada às obras de vários filósofos que trabalhavam e ensinavam em Oxford em meados do século XX. Entre eles, destacam-se J. L. Austin, Gilbert Ryle e Peter Strawson. Fora do círculo de Oxford, o trabalho tardio de Wittgenstein é o exemplo mais destacado de filosofia da linguagem comum.
Queremos dizer com isso que a referência à “linguagem comum” marca o contraste com concepções anteriores sobre o papel da linguagem na resolução de problemas filosóficos. Se para os filósofos do período clássico da análise filosófica (Frege, Russell, os positivistas lógicos) os problemas teriam de ser resolvidos por linguagens artificiais – mais precisas e exatas que a linguagem natural –, a ênfase do segundo Wittgenstein e dos filósofos de Oxford concentra-se nos conceitos tal como forjados pelos falantes da língua em situações concretas de uso das palavras. Michel de Certeau acaba, afirmando que por essas características a obra disseminada e rigorosa parece oferecer uma épura filosófica a uma ciência contemporânea do ordinário. Sem entrar nos pormenores de sua tese, ao menos por ora, deve-se confrontar este modelo, tomado como hipótese teórica no campo da comunicação, do poder e da linguagem, com as contribuições positivas de ciências humanas (sociologia, etnologia, história…) ao conhecimento da cultura ordinária. Bibliografia geral consultada:
Cf. edições: ALBERONI, Francesco, Innamoramento e amore; Idem, L`amicizia; Idem, L`erotismo; Idem, Gli invidiosi; Idem, Ti amo; Idem, Il primo amore; Idem, Il volo nuziale; Idem, Il mistero dell`innamoramento; Idem, Sesso e amore; RYLE, Gilbbert, “A Linguagem Ordinária”. In: Ensaios. 2ª edição. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Os Pensadores), pp. 36 e ss; DEBORD, Guy, La société du spectacle, 1967. Numerous editions; in English: The Society of the Spectacle, Zone Books, 1995; BRAGA, Ubiracy de Souza, “A Questão Israelense-Palestina: histórias míticas? In: Jornal O Povo. Fortaleza, Ce, 7 de outubro de 2006; Idem, “O modelo Wittgenstein de verdade apodítica: linguagem ideal ´versus` linguagem ordinária”. In: Revista O Público e o Privado.: http://seer.uece.br/politicaspublicasesociedadearticle; Idem, “Franz Kafka e a figura paterna em Praga”. Disponível em: http://www.oreconcavo.com.br/category/artigos/; Idem, “Ita-maremoto e a dimensão econômica do discurso político”. In: http://www.oreconcavo.com.br/2011/07/03/; Idem, “Dança com Lobos: (I)legalidades no Brasil Contemporâneo?”. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/007/07ubiracy.htm; GINZBUURG, Carlo e PONI, Carlo, “Il nome e il come: scambi ineguale e mercato storiografico”. In: Quaderni Storici, n 40, 1979; GLOCK, Hans-Johan, Dicionário Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998; WITTGENSTEIN, Ludwig, Investigações Filosóficas. 2ª edição. Tradução (alemão) de José Carlos Bruni. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Os Pensadores); Idem, Tratado Lógico – Filosófico/Investigações Filosóficas. Trad. (inglês) e prefácio M. S. Lourenço; Introdução de Tiago de Oliveira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987; BOURDIEU, Pierre, Ce Que Parler Veut Dire. Paris: Fayard. Coleção Cahiers Rougess, 1998; ARENDHT, Hannah, Eichmann em Jerusalém. Um Relato sobre a Banalidade do Mal. São Paulo: Companhia da Letras, 1999; CERTEAU, Michel, A Invenção do Cotidiano: 1. artes de fazer. Petrópolis, RJ: 1994; GADAMER, Hans-Georg, Verdade e Método. Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. 2ª ed. Petrópolis (RJ): 1998; GLOCK, Hans-Johann, Dicionário Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1998; HALLER, Rudolf, “A Ética no Pensamento de Wittgenstein” In: Revista Estudos Avançados. São Paulo/USP, janeiro/abril. Volume 5 – número 11, 1991; HARTNACK, Justus, Wittgenstein y la Filosofía Contemporánea. Barcelona: Editorial Ariel, 1977; KANT, Immanuel, Textos Selecionados (I-II). São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Os Pensadores); MORENO, Arley R., Wittgenstein, ensaio introdutório. Rio de Janeiro: Taurus Editora, s. d; RORTY, Richard, Objetivismo, relativismo e verdade. Escritos filosóficos. Vol. 1. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997; Idem, A filosofia e o espelho da natureza. 3ª edição. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994; SCHLICK, Moritz/CARNAP, Rudolf, Coletânea de Textos. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Os Pensadores); SCHORSKE, Carl E., Viena – fin-de-siècle: política e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, entre outros.

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